Entrevista com Dom Abade Paulo Celso Demartini O. Cist.
Por Mauricio Gil, Caiana MG, 29 de Dezembro de 2020.
Hoje o
Depois do Kherygmma apresenta uma entrevista com Sua Paternidade Dom Abade
Paulo Celso Demartini O. Cist. – abade emérito do Mosteiro Cisterciense (Abadia Nossa Senhora de São Bernardo), em São José do Rio Pardo-SP.
Dom Paulo: Nestes últimos tempos temos tido como
vocacionados universitários ou já formados, uns até com certa estabilidade
financeira, alegando que têm uma inquietude vocacional. Não se sentem
felizes com o que possuem, e anseiam por uma vida de escondimento com
Cristo em Deus.
DK: Quais foram as vossas inspirações
para abraçar a vida sacerdotal em uma ordem monástica?
Dom Paulo: Bem, nasci na mesma cidade do mosteiro. Os
monges celebravam missa no sítio de meus pais. Minhas avós eram muito
religiosas e uma delas morava a poucos metros do mosteiro. Por não conhecer
nem a cidade vizinha, comecei a frequentar o mosteiro desde pequeno,
a convite dos monges, especialmente de Dom Orani, que depois de
prior, abade e bispo, é agora Cardeal-Arcebispo do Rio de Janeiro.
Também devo à Serva de Deus Dona Lourdinha Fontão, em processo
de beatificação em nossa Paróquia Santuário São Roque. Ela
rezava muito pedindo santas e perseverantes vocações monásticas. Mesmo
que na época eu nem sabia distinguir um padre diocesano de um
monge sacerdote, posso dizer que Deus foi encaminhando, e que fiz a
melhor escolha. Sei que as motivações iniciais (hábito de monge,
canto gregoriano, arquitetura monástica, bondade de algum monge, etc)
aos poucos terão que ser mudadas em motivações mais consistentes.
Deus até pode usar de meios iniciais, mas depois precisamos dar
nossos próprios passos, superar as decepções e crises.
DK: Como seu deu a vossa eleição para Abade e
quais os sentimentos que preencheram vosso coração ao assumir esta tão
bela missão?
Dom Paulo: Autoridade é serviço. Exerci com humildade
vários cargos no mosteiro: vice-prior quando Dom Orani foi eleito abade;
por 10 anos fui prior quando Dom Edmilson foi o nosso segundo abade, e fui
eleito sucessor desses dois grandes pais espirituais, agora bispos, um
deles, inclusive, cardeal.
DK: Falando um pouco mais sobre o
abaciado de vossa paternidade, sabemos que a ordenação de um Bispo é
realizada por 3 bispos ordenantes, e que o Bispo recebe após a bênção
consecratória as insígnias próprias do grau do Episcopado, como se dá a
Bênção Abacial, e quais as semelhanças entre as insígnias do Bispo e
do Abade?
Dom Paulo: A Bênção Abacial tem um ritual próprio no
Pontifical Romano. Parece muito a uma ordenação episcopal, mas não é um
sacramento, ainda que tenha, de modo análogo, quase que o mesmo rito,
exceto a unção e imposição das mãos. Na Bênção Abacial tem o diálogo com o
abade eleito, a ladainha dos Santos, a oração de bênção, e a entrega
das insígnias: anel abacial, mitra e báculo. A cruz abacial e o
solidéu branco, privilégio aos abades cistercienses, já tinham sido
entregues no dia da eleição abacial. Um abade também pode ter seu brasão
de armas e a escolha de um lema abacial. No meu caso foi ”pius pater”, tirado da Regra de
São Bento. Lembro que um abade é ordinário no âmbito de seu mosteiro, mas
não numa diocese, pois não tem o caráter sacramental do episcopado.
DK: Um Bispo, pelo Código de
Direito Canônico deve apresentar pedido de renúncia aos 75 anos, o Abade
deve fazer o mesmo aos 75 anos ou não existe uma idade limite?
Dom Paulo: A Ordem Cisterciense é regida pelas
Constituições respectivas, da Ordem em geral e pelas das várias
Congregações que a formam. Meu abaciado era por 6 anos, findo o sexênio
podendo ser reeleito. Com a novas Constituições da Congregação
Cistercienses de São Bernardo na Itália, em 2017, se legislou o que tem
sido o normal nas demais Congregações: o abade pode seguir até os 75 anos,
para dar mais estabilidade ao mosteiro, evitando sucessivas mudanças. O
abade agora pode, também, sair antes dos 75, se renunciar ou for
destituído por causas graves.
DK: Os mosteiros sempre foram
verdadeiros oásis de cultura, arte, arquitetura, canto gregoriano e
estudo, hoje infelizmente percebemos no seio da sociedade um abandono e
até mesmo um empobrecimento de tudo isto, o que é necessário fazer para
que voltemos a enxergar no belo, culto e solene um ato de louvor a Deus
assim como acontece nos mosteiros?
Dom Paulo: Costumo dizer que o demônio quer destruir as famílias, a Igreja, e, no nosso caso, os mosteiros, pois estes não só são necessários, mas até imprescindíveis para a existência do mundo, sendo intercessores da humanidade. Muitos podem chegar a Deus pela beleza, e isso comprovamos ao ver a beleza da arquitetura e espaço sagrado dos mosteiros, pelas obras de arte, pelo canto litúrgico, pelo silêncio, pela espiritualidade cristã.
DK: A vida de oração dos monges chama muita atenção dos jovens, quais as maiores dificuldades que os monges enfrentam para vivê-la?
Dom Paulo: Num mundo tão barulhento e reluzente, o silêncio e singeleza das construções, a sabedoria milenar nas bibliotecas dos cenóbios preenche esse vazio existencial. Certamente o levantar-se cedo não atrai muito os jovens. No nosso mosteiro o sino toca às 04:35, mas temos uns que se levantam bem mais cedo, seja para fazer o café, seja para oração pessoal na capela do Santissimo.
DK: Um jovem que não possui a vocação Sacerdotal porém quer viver uma vida de oração e trabalho em seu matrimônio e deseja fazer diariamente a Liturgia das Horas, como ele deve agir? Quais os primeiros passos devem ser dados?
Dom Paulo: Nosso Pai São Bento coloca no Capítulo 58[1] da Santa Regra os requisitos para servir a Deus num mosteiro: ver se busca verdadeiramente a Deus, através da oração, da obediência e dos opróbrios, que nunca faltam. É fazer um caminho de discernimento vocacional, para que pessoalmente veja se sente chamado a está vida de silêncio, humildade, caridade fraterna. Mas ele pode, como oblato secular, viver essa espiritualidade como leigo, como casado ou solteiro. Temos um Estatuto para os Oblatos Seculares, que prevê etapas de formação, sendo presença no meio deste mundo, onde trabalha, convive, estuda.
DK: Para aqueles jovens que amam o monaquismo mais não possuem a vocação religiosa, existe alguma forma de estarem unidos aos mosteiros? O que fazer?
Dom Paulo: Temos o Grupo dos Oblatos Seculares Cistercienses, com Estatutos próprios, para os leigos e mesmo padres que querem viver a espiritualidade monástica mas não morando no mosteiro. Tem sua formação e os passos neste caminhar, mas sem perder a índole secular.
DK: Quais os ensinamentos de Santo Antão, São Bento e São Bernardo devem ser seguidos pelos jovens na atualidade?
DK: Sua Santidade Bento XVI proclamou a monja Santa Hildelgarda de Bingen Doutora da Igreja quais os ensinamentos dela devem ser seguidos por nossas jovens?
Dom Paulo: Na linguagem atual ela foi uma mulher multimídia! Sabia das ciências e das coisas da fé, harmonizando-as a partir de sua visão de fé. Quando participei no Capítulo Geral da Ordem em 2010, fomos à Audiência Geral com o papa Bento XVI na Sala Paulo VI. Para surpresa de todos, naquele dia ele falou da monja Santa Hildegarda. A escolha dela como doutora é uma deferência especial à espiritualidade monástica. Está em curso uma comissão para que Santa Gertrudes de Helfta também seja doutora. Ela era juridicamente beneditina, mas, de fato, observava os costumes cistercienses. A comissão é formada por monges beneditinos, cistercienses e trapistas.
DK: Sua Paternidade realiza um trabalho de evangelização nas redes sociais explicando a Regra de nosso Pai São Bento quais os pontos dela devem ser seguidos pelos leigos para um melhor exercício da fé em suas vidas?
Dom Paulo: Bom, aprendi com Dom Orani, desde quando estava no mosteiro, antes de ser nomeado Bispo. Ele usava dos parcos meios que na época tínhamos. Agora, na geração computador, e aproveitando a pandemia, procurei iniciar algo que há tempos pensava. Divulgar a espiritualidade monástica para o grande público, pois são “comentários caseiros”, tentando mostrar que também os leigos podem viver esses princípios no seu próprio estado de vida. Procuro fazer esta explicação pelo Facebook, YouTube e Instagram. Por vezes também lives e transmissões de missas e ofícios do mosteiro e paróquia.
DK: O que deve ser feito para que o monaquismo seja melhor difundido nas redes sociais e possa ser fonte de evangelização e vocações?
Dom Paulo: Não há interesse por grandes coisas. O Reino de Deus nos convida a ser humildes, sal, luz e fermento. Seria louvável que através disso se enchessem os mosteiros, mas o caminho de discernimento é purificar as motivações iniciais. Não é questão de número, mas sinais de busca sincera de Deus, como São Bento fala no Capítulo 58.
DK: Qual a vossa opinião sobre a situação atual da Igreja e quais os caminhos para uma conversão diária de todos nós católicos?
Dom Paulo: Ser cristão será sempre um combate contra nós mesmos, nossas tendências e fraquezas, e a defesa dos valores morais e cristãos, face a um mundo cada vez mais secularizado. Por ser Igreja fundada pelo próprio Cristo, a Igreja é sinal de contradição. Os mosteiros sempre foram os baluartes da fé, moral e sabedoria ao longo dos séculos. Por isso que o demônio quer destruir as vocações monásticas e até secularizar os já monges.
DK: Atualmente no Brasil quantos Bispos são Cistercienses?
Dom Paulo: São dois, ambos continuam monges de nosso mosteiro e foram abades no mesmo. Um deles inclusive é cardeal. O interessante é que Dom Orani ordenou Bispo a Dom Edmilson, que tinha sido seu sucessor como abade no nosso mosteiro. Dom Orani foi o primeiro monge cisterciense brasileiro nato a ser bispo aqui. No tempo do Brasil Colônia tivemos cistercienses bispos, mas eram portugueses. Foram bispos em São Luís, depois em Mariana, e em Salvador. Então, atualmente são dois os bispos: Dom Orani João Tempesta O. Cist. (cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro) e Dom Edmilson Amador Caetano O. Cist. (bispo de Guarulhos-SP).
DK: Além de Sua Eminência Reverendíssima Dom Orani quantos Cardeais são Cistercienses? E quais?
Dom Paulo: Pelas minhas pesquisas nosso ex-abade, e agora cardeal Tempesta, Dom Orani, é o 40° cardeal Cisterciense. O último era do século XVIII. A nossa paroquiana, e agora Serva de Deus Dona Lourdinha Fontão, madrinha de oração de Dom Orani, um dia, do nada, disse na década de 80 que ele seria bispo e...papa. Deus é que sabe. Já tivemos 2 papas cistercienses: Beato Eugênio III e Bento XII. Mas ser papa hoje em dia é um desafio tão grande, que Dom Orani poderia ser poupado. Mas bem que ele mereceria ser chamado de “Novo Bernardo de Claraval”.
UIOGD et
BMV – Que em tudo seja Deus glorificado e a Beatíssima Virgem Maria.
[1]: Cap 58 da Regra de São Bento Das Maneiras de Admitir os Irmãos – Vida de
São Bento/ São Gregório Magno.; Regra de São Bento/ São Bento de Nursia;
Tradução: Tiago Gadotti - Dois Irmãos, RS: Minha Biblioteca Católica
2019, p 265;
Titulo Original: De vita et miraculis venerabili
Benedicti; Regula Sancti Benedicti.
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