Tu és sacerdote eternamente...
Sei que o leitor já deve ter
completado mentalmente o título desse meu artigo. Talvez tenha até cantarolado
a conclusão “segundo a ordem do rei Melquisedec” (cf. Sl 109,4). Sempre que
vamos a uma ordenação presbiteral, é comum ouvirmos esse refrão em alguma
melodia ou no salmo de resposta ou nalgum refrão meditativo para um determinado
momento do ritual de ordenação. Mas por quê? Quem foi Melquisedec? E o que ele
tem que ver com os padres?
Melquisedec é aquele “sábio rei e sacerdote
do Deus Altíssimo” que aparece por primeiro no livro do Gênesis mandando trazer
pão e vinho (14,18); que depois aparece no salmo acima citado; e por fim no
livro dos Hebreus, que é um livro profundamente sacerdotal e que muito nos
ajuda a refletir sobre o sacerdócio. É inclusive nos Hebreus que se diz um
pouco mais sobre ele, mas mesmo assim é muito pouco ou quase nada: “Este
Melquisedec, rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo, que saiu ao encontro de
Abraão quando este regressava da derrota dos reis e o abençoou, ao qual Abraão
ofereceu o dízimo de todos os seus despojos, é, conforme seu nome indica,
primeiramente ‘rei de justiça’ e, depois, rei de Salém, isto é, ‘rei de paz’. Sem
pai, sem mãe, sem genealogia, a sua vida não tem começo nem fim; comparável sob
todos os pontos ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre” (Hb 7,1-3).
E isso é tudo!
A Escritura não diz nem quando nem
como surgiu ou morreu, mas apenas que é um sacerdote “sem pai, sem mãe, sem
genealogia, cuja vida não tem começo nem fim”. Melquisedec não tem família. Tal
qual Cristo, Melquisedec não tem ascendência nem descendência. Ele não viveu
muito nem pouco, não é velho nem novo. Assim, talvez possamos dizer que
Melquisedec é! Melquisedec é uma prefiguração de Cristo, pois antecipa a vinda
de um sacerdote realmente grande e eterno. Ele “entra e sai de cena” sem atrair
para si as luzes e os holofotes do ministério sacerdotal, até porque é em Jesus
Cristo que nós temos um novo significado para o sacerdócio. Se outrora o sacerdote
era apenas aquele personagem que oferecia o sacrifício agradável a Deus no
altar, em Jesus Cristo temos a força do tríplice múnus que reúne agora não mais
apenas o sacerdote, que continua oferecendo o pão e o vinho, mas também o
profeta que anuncia o Reino e o rei que governa com justiça e paz.
Se Melquisedec é chamado de “rei
de justiça”, e o rei é uma figura ligada ao tempo, ao efêmero, ao que passa;
por outro lado Jesus Cristo é o “sol da justiça” (cf. Ml 4,2), e o sol nos
remete ao transcendente, ao eterno e ao que nunca passa, como bem nos recorda a
grande santa e mística da Igreja, Santa Teresa D’Ávila, em seu conhecido poema.
Quanto à relação de Melquisedec
com o sacerdócio, podemos dizer que se deve ao fato de que ele é o primeiro
sacerdote de que trata a Bíblia e que depois dele vem alguns outros, mas ele é
o primeiro, daí que termina sendo um pouco “espelho” ou modelo para os demais
sacerdotes, já que com ele se inicia uma “linhagem sacerdotal”. Linhagem essa
que não guarda nenhuma relação com a genealogia ou a hereditariedade, como é o
caso da ordem dos levitas. Levi era descendente de Jacó e Lia, e todos os
descendentes de sua tribo, os levitas, eram necessariamente sacerdotes. Do
contrário, a ordem de Melquisedec “se contrapõe” a essa outra ordem: seus
sacerdotes não eram herdeiros do sacerdócio, mas escolhidos. Chamados e eleitos
para fazerem parte dele por meio de uma consagração. Consagração essa total e
absoluta!
Depois ainda, vejamos que
Melquisedec “manda trazer pão e vinho” (cf. Gn 14,18), e foi justamente o pão e
o vinho que Jesus ofereceu na Última Ceia aos seus discípulos, quando lhes deu
o mandato de que eles fizessem isso sempre, e da mesma maneira que ele fez (cf.
Lc 22,19-20). Outrora Melquisedec simplesmente mandou trazer o pão e o vinho,
mas nós devemos olhar nesse gesto novamente uma prefiguração, uma antecipação
da oferta que Jesus Cristo faria milhares de anos depois do pão e do vinho como
sendo o seu próprio corpo e o seu próprio sangue.
Portanto, cada vez que um padre é
ordenado, ele se enfileira por meio dessa consagração total e absoluta de si
mesmo, à ordem de Melquisedec. Dessa forma, podemos dizer que, em Cristo, que
abraçou esse mesmo sacerdócio e o dignificou, todo padre se torna, junto com
Ele, eterno. Não em sua humanidade, que é efêmera, e que, por isso, também
passa, mas pelo Cristo, eterno, que habita nele! (cf. Gl 2,20).
O sacerdote é eterno porque, no
exercício do seu ministério, ele vai oferecer o sacrifício da Santa Missa
diariamente. E cada vez que ele repetir as palavras da consagração, não por ele
nem por suas pequenas forças, mas pelo Cristo que vive nele e ao qual ele um
dia se configurou no momento de sua consagração, um simples pedaço de pão e um
cálice de vinho se transformarão em Corpo e Sangue do Senhor. E cada Eucaristia
celebrada se unirá àquela única Missa ocorrida no Calvário diante de Maria
Santíssima, da outra Maria e de João, o discípulo que ele amava e que acolheu a
Sua mãe em sua casa, que somos todos e cada um de nós. Eis o mistério da fé!
Cônego Danilo Santos, OPræm
Vigário
paroquial da Paróquia São Judas Tadeu de Piracicaba-SP
Formador
do postulantado premonstratense

Belíssima reflexão neste artigo!
ResponderExcluirMeus parabéns Côn. Danilo, O.Pra em. Deus te abençoe!